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Guerra no Oriente Médio eleva alerta no varejo brasileiro 


A intensificação do conflito no Oriente Médio já acende sinais de cautela entre indústria e varejo no Brasil, mesmo antes de impactos diretos aparecerem nas gôndolas dos supermercados. A preocupação central está no efeito combinado da alta potencial dos combustíveis, do encarecimento de insumos derivados do petróleo e dos riscos de interrupções logísticas em cadeias produtivas. 

Embora ainda não haja reflexos imediatos no checkout, empresas do setor já operam em modo preventivo, revisando orçamento, custos logísticos e estratégias de abastecimento. Segundo análise da Scanntech, empresa de inteligência de dados para o setor de bens de consumo, a principal reação do setor neste momento é recalibrar estoques ao mesmo tempo em que se tenta minimizar o impacto em custo de operações e fluxo de caixa. 
  

Estoque maior vira proteção contra alta de custos 

“Não observamos ainda impacto direto nas prateleiras, mas já vemos varejo e indústria revisando níveis de estoque, replanejando logística, negociando com fornecedores, especialmente fora do Brasil, e avaliando cenários de curto e longo prazo”, afirma Daniel Portela, diretor de produtos para supply na Scanntech. 

A tendência predominante, segundo Portela, é elevar estoques como mecanismo de proteção diante de dois riscos simultâneos: aumento de preços e possibilidade de ruptura no abastecimento. Dados da empresa apontam que muitas indústrias já possuem entre 5% e 10% de ruptura nas principais redes varejistas. Gargalos na logística doméstica ou internacional de matéria-prima e até mesmo eventuais impasses em negociações de repasse de custo, podem aumentar ainda mais estes níveis de ruptura. 
  

Produtos não perecíveis oferecem maior margem de manobra, já que varejo e indústria trabalham com estoques entre 30 e 45 dias. A experiência recente da guerra entre Ucrânia e Rússia, iniciada em fevereiro de 2022, serve de referência: cinco meses após o início do conflito, o preço do leite chegou a dobrar no Brasil, impulsionado pelo custo agrícola. 

Já os perecíveis, especialmente aquelas dependentes de fertilizantes oriundos do gás, apresentam maior sensibilidade, porque qualquer alteração em fertilizantes, transporte ou energia chega mais rapidamente ao consumidor final. “O setor busca equilíbrio: estocar demais aumenta custo de armazenagem e impacta fluxo de caixa; estocar pouco amplia risco de ruptura, de impacto no custo no médio prazo e perda de venda”, explica o diretor. 
  

O encarecimento do petróleo afeta não apenas fretes, mas também embalagens plásticas, enquanto fertilizantes pressionam toda a cadeia agrícola e com isso produtos básicos tendem a sentir a pressão primeiro. 
Segundo a análise da Scanntech, categorias como arroz, feijão e leite apresentam baixa elasticidade de demanda, o que reduz a sensibilidade do consumo mesmo diante de reajustes de preço. Em produtos comoditizados, que tradicionalmente operam com margens mais apertadas no varejo, há menor espaço para absorção de aumentos ao longo da cadeia. Já as categorias premium costumam ter maior flexibilidade para acomodar parte do custo adicional, ao mesmo tempo em que o frete tem menor representatividade na formação do custo variável do produto, refletindo em menores aumentos de preços ao consumidor. “Momentos de instabilidade exigem monitoramento diário e integração maior entre varejo, indústria e transportadoras. A prioridade passa a ser ajustar rapidamente cenários, se aproximar dos parceiros que participam da cadeia de abastecimento para melhor mapeamento completo do cenário, evitar excesso de custo e manter abastecimento, ou seja, o dado passa a ser essencial para calibrar decisões e evitar erros de estoque em um ambiente de alta volatilidade e consequente baixa previsibilidade”, resume Priscila Ariani, diretora de marketing e de estudos da Scanntech. 

(Fonte: Foodbiz, 24 de março de 2026) 

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