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Pesquisa aponta consumidor mais otimista em 2027, mas também mais exigente


O consumidor latino-americano deixou de encarar a instabilidade como uma fase passageira. É a partir dessa premissa que a NIQ (NielsenIQ) construiu o Consumer Outlook Guia para 2027, que cruza dados de compra com pesquisas de sentimento em dezenas de países. A leitura da empresa é que os próximos 12 a 18 meses podem marcar uma retomada global, depois de um longo período de estagnação para muitas famílias. Para o varejo alimentar, porém, a melhora do humor não devolve o carrinho de antes. O estudo aponta cinco forças que devem moldar o setor no ano que vem.

Volatilidade que virou rotina

O otimismo financeiro voltou a crescer. Na América Latina, 37% dos entrevistados afirmam que a situação do domicílio melhorou em relação ao ano anterior, 4 p.p. a mais que em 2025. O Brasil lidera esse movimento, com 45% de respostas positivas, contra 34% na edição passada.

Os preços, no entanto, continuam no centro da conversa. A alta do preço médio dos bens de consumo na região desacelerou de 6,6% em maio de 2025 para 4,6% em maio de 2026, ainda quase o dobro dos 2,4% da média global.

O efeito acumulado explica a sensibilidade. O que custava US$ 100 em 2024 equivale hoje a US$ 109 na América Latina, o maior valor entre as regiões e acima dos US$ 105 da média mundial. Não por acaso, o aumento dos preços dos alimentos lidera a lista de preocupações, citado por 29% dos latino-americanos. Na sequência vêm as contas de serviços públicos (19%), que subiram do quarto para o segundo lugar.

Para fechar o orçamento, 76% dizem buscar fontes extras de renda, contra 61% na média global, e 40% se declaram propensos a trocar de emprego para evitar uma demissão.

O meio do caminho perde espaço

A melhora de humor convive com uma divisão econômica que não se desfaz. Cerca de 19% dos consumidores seguem no grupo que a pesquisa chama de “Lutadores”, os mais afetados pela insegurança financeira, índice estável em relação a 2025. No Brasil, os que se sentem prósperos subiram de 16% para 22%, enquanto os Lutadores somam 12%.

Além disso, para 64% dos latino-americanos, se um produto não é claramente melhor, vale economizar, índice que chega a 72% no Brasil. Ao mesmo tempo, 59% preferem um item claramente superior quando decidem gastar mais. Enquanto isso, marcas medium tier sofrem mais pressão para mostrar seu valor.

Na intenção de gastos, a mercearia aparece como território protegido. Para os próximos 12 meses, 28% planejam gastar mais e metade pretende manter o valor, enquanto a alimentação fora do lar e o delivery estão entre os itens mais ameaçados, com 46% e 45% planejando reduzir. Para mercados polarizados como Brasil e Chile, a NIQ recomenda gerir ativamente os portfólios premium e de valor e racionalizar a exposição ao mainstream. Já onde o meio resiste, como Colômbia e México, vale investir nas marcas centrais.

Cada compra precisa se justificar

Os latino-americanos pesam preço e qualidade com praticamente o mesmo cuidado. Questionados sobre o fator mais importante para decidir se um item de supermercado vale a pena, 29% citam o preço acessível e 30% apontam qualidade ou desempenho que justifique o valor. E o que faz o consumidor pagar mais? Melhor valor por quantidade, como em embalagens econômicas, e produtos que economizam tempo aparecem com 34% cada. Experiência e prazer vêm depois, com 24%, ou 28% no Brasil.

Quase todas as estratégias de economia ganharam força. A mais citada é deixar de comprar certos produtos para focar no essencial (38%), seguida de trocar para uma marca mais barata (36%) e frequentar mais vezes lojas de preço baixo (34%, alta de 4,5 pontos). No Brasil, 49% compram qualquer marca que esteja em promoção. Os maiores saltos vieram da compra de tamanhos maiores com menor preço por quilo ou litro (5,9 pontos), da compra online (5,8) e do estoque em época de oferta (4,6).

Esse ajuste cobra seu preço no volume. No Brasil, 56% das categorias registraram queda na frequência de compra e 48% perderam compradores. Entre os latino-americanos, 41% concordam que “menos é mais” e que não precisam de muito para ser felizes, e 38% dizem ter parado de comprar certas coisas para se concentrar no essencial.

O mapa de intenções por categoria, que mede a diferença entre quem pretende gastar mais e quem pretende gastar menos, mostra quem sai ganhando. Hortifrúti (+16) e açougue (+4) estão no azul, enquanto snacks e doces (-38), bebidas alcoólicas (-36) e refeições prontas (-33) lideram as quedas. Os mexicanos são os mais dispostos a ampliar gastos e os chilenos, os mais restritivos, com snacks e doces chegando a -50 no país.

Saúde nas mãos do consumidor, mas nem todos alcançam

A busca por bem-estar já disputa espaço com o preço na hora da escolha. Entre os fatores considerados mais importantes, 16% dos latino-americanos citam acessibilidade e 15% apontam opções mais saudáveis ou naturais, praticamente empatados.

A disposição de pagar por isso, porém, depende do bolso. Pagariam mais por produtos frescos sem conservantes 70% dos entrevistados, mas o índice vai de 79% entre os “Prósperos” a 60% entre os “Lutadores”. A transparência sobre ingredientes e cadeia de suprimentos convence 55%, com 67% de um lado e 42% do outro. Já o selo de saudável dado por pessoas ou organizações atrai 52%, entre 67% e 39% conforme o grupo.

Os dados de compra confirmam a concentração. Segmentos tidos como saudáveis pesam desproporcionalmente nas famílias de maior nível socioeconômico, com over-index de 177% para leite aromatizado proteico no Brasil, 144% para refrigerante zero no Chile, 141% para leite sem lactose na Colômbia e 119% para cerveja light e sem álcool no México. No Chile e no México, essas famílias ganharam relevância nas compras de bens de consumo. No Brasil, a fatia caiu de 36,4% para 35,8%.

Os medicamentos GLP-1 entram nessa equação. No Brasil, 4,6% já usam ou usaram, e outros 33,3% aparecem como potenciais usuários, com o preço (15,9%) à frente do receio de efeitos colaterais (10,2%) entre os obstáculos. A NIQ espera mais tração com a chegada de versões mais acessíveis. 

(Fonte: Portal SAMais, 21 de Outubro de 2026)