Projetos de papel voltam ao foco dos fabricantes

Projetos de papel voltam ao foco dos fabricantesA instalação de novas máquinas de papel, que andaram fora do foco da indústria brasileira nos últimos anos, voltou a atrair investimentos significativos. A perspectiva de crescimento da demanda por papéis para embalagem e tissue (usado para fins sanitários) alimenta um novo ciclo de expansão das papeleiras no país, ao mesmo tempo em que as tradicionais regiões produtoras – Europa e América do Norte – dão sinais de acomodação ou encolhimento.

Um estudo da Pöyry, consultoria finlandesa que é referência para o setor, indica que a América Latina responderá pelo segundo maior crescimento mundial da produção de papel gráfico (usado para impressão), para embalagem e tissue até 2025, atrás da líder isolada Ásia.

Na região ocidental, o volume adicional produzido será de nove milhões de toneladas/ano – sobre as 20 milhões de toneladas fabricadas em 2011. Na Ásia, indica a Pöyry, novas fábricas adicionarão 92 milhões de toneladas/ano até 2025, diante de produção de 177 milhões de toneladas em 2011.

“O crescimento, sem dúvida, está na Ásia e na América Latina, embora a vantagem seja enorme para os asiáticos”, afirmou o vice-presidente executivo da Pöyry Tecnologia, Carlos Alberto Farinha e Silva. Na contramão, a América do Norte pode chegar à metade da próxima década com capacidade produtiva inferior em oito milhões de toneladas, diante do encolhimento do setor de papéis gráficos. Na Europa, o saldo ainda é positivo, com adição de sete milhões de toneladas/ano à capacidade instalada, uma vez que os investimentos em embalagem e tissue vão compensar a redução dos volumes de papéis gráficos.

Neste momento, a Klabin se prepara para ampliar a capacidade de cartões no Paraná, em investimento que poderia girar entre US$ 750 milhões e US$ 800 milhões, considerando-se os valores aproximados para uma máquina com capacidade para 400 mil toneladas anuais. O papelcartão da companhia é usado, sobretudo, em embalagens longa vida. Em paralelo, a empresa, maior fabricante brasileira de papéis para embalagens, também está investindo R$ 520 milhões em duas outras novas linhas de produção, de sacos industriais em Correia Pinto (SC) e de papéis reciclados em Goiana (PE).

A americana International Paper (IP), por sua vez, retomou os estudos para instalar uma nova máquina de papel de imprimir e escrever em Três Lagoas (MS), com investimento estimado em US$ 300 milhões. No segmento de tissue, cujo consumo foi impulsionado pela melhora da renda do brasileiro, “sempre há algum investimento em curso”, lembrou Farinha, da Pöyry. A fluminense Carta Fabril, por exemplo, planeja investir US$ 1 bilhão até 2024 na que seria hoje a maior fábrica do mundo desse tipo de papel.

A largada para a nova rodada de investimentos significativos no Brasil foi dada há pouco mais de um ano pela MWV Rigesa, segunda maior produtora local de embalagens de papelão ondulado. Com aporte de quase R$ 1 bilhão em Três Barras (SC), a empresa, do grupo americano MeadWestvaco, recuperou a autossuficiência em papéis no país.

De acordo com o vice-presidente do negócio de papelão ondulado da MWV Rigesa, Paulo Iserhard, o foco da corporação está nos países emergentes. Para o Brasil, a empresa projeta crescimento médio de 3,5% ao ano, no médio prazo, com ritmo superior ao verificado em 2011 e 2012. “Para 2013, nossa projeção para o mercado coincide com a da ABPO (entidade que representa a indústria brasileira e estima crescimento de 3,5% nas vendas deste ano). Mas não há necessariamente um alinhamento dos números para os próximos anos”, afirmou.

Pouco tempo depois do movimento da MWV Rigesa e na mesma área de negócio, a IP anunciou a criação de uma joint venture com a brasileira Jari, do grupo Orsa, em operação na qual a Jari aportou fábricas já existentes e a IP investiu R$ 952 milhões. O negócio marcou a entrada da companhia americana no mercado brasileiro de embalagens de papelão, o que era desejado há algum tempo por sua direção.

Antes disso, entre 2007 e 2010, houve três movimentos relevantes da indústria papeleira nacional, um deles relativo a ativos já existentes. Em 2010, a Suzano Papel e Celulose acertou a compra dos 50% que ainda não detinha do Conpacel, consórcio que abrigou a antiga Ripasa, e pertenciam à Fibria por R$ 1,45 bilhão. Em termos de ampliação de capacidade, dois investimentos relevantes remetem a 2007. Naquele ano, a Klabin inaugurou uma máquina de cartões em Telêmaco Borba, em um projeto que exigiu investimentos de R$ 2,2 bilhões. A IP, por sua vez, oficializou o projeto de uma linha de papéis de imprimir e escrever em Três Lagoas (MS), inaugurada em 2009 após desembolsos de US$ 300 milhões.

Em 2011, diante dos pesados investimentos em curso em celulose e dos planos em energia renovável, a Suzano considerou a possibilidade de vender determinados ativos de papel. A ideia acabou descartada, depois que a companhia montou um pacote de blindagem financeira de R$ 10 bilhões e de seu conselho ter reiterado que o negócio faz parte da estratégia de longo prazo, numa demonstração de confiança nesse mercado.

(Fonte: Econfinanças / Valor, 08 de abril de 2013)